segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O peso invisível dos dias comuns e os pequenos instantes que nos salvam

Miguel tinha trinta e nove anos, morava sozinho em um apartamento pequeno e levava uma vida que cabia perfeitamente dentro da palavra “normal”. Trabalhava em um escritório, pagava as contas em dia, fazia compras aos sábados e prometia começar a academia toda segunda-feira. Nada de extraordinário. E talvez fosse exatamente isso que o incomodasse.

Naquela manhã, Miguel acordou com a estranha sensação de estar atrasado para alguma coisa, embora não soubesse exatamente para quê. Olhou o relógio, confirmou que ainda tinha tempo e, mesmo assim, sentiu uma pressa sem nome. Era como se o dia tivesse começado antes dele.

Levantou-se devagar, arrastando consigo pensamentos que não lembrava de ter convidado para a manhã. No espelho, encontrou um rosto comum, desses que passam despercebidos nas multidões. Nem triste, nem feliz. Apenas cansado. Um cansaço que não vinha do corpo, mas do acúmulo silencioso de dias parecidos.

O café esfriou enquanto Miguel observava a rua pela janela. Pessoas iam e vinham, cada uma carregando seu próprio mundo dentro de si, embora por fora parecessem apenas corpos apressados tentando chegar a algum lugar. Pensou em como ninguém imagina os abismos e as delicadezas escondidos em quem cruza seu caminho por alguns segundos.

No trajeto até o trabalho, percebeu que repetia os mesmos gestos, pisava nos mesmos lugares, respirava no mesmo ritmo. A rotina havia se tornado uma espécie de trilho invisível, e Miguel já não sabia mais quando havia começado a caminhar sem escolher o destino.

Ainda assim, algo mudou quando viu uma senhora sorrindo sozinha no ponto de ônibus, como se tivesse acabado de lembrar de um segredo bom demais para ser guardado. Aquela cena simples, quase insignificante, atravessou seu pensamento como um raio manso. Talvez a vida fosse exatamente isso: pequenos instantes que tentam nos acordar do automático.

Miguel seguiu o dia com mais cuidado, reparando em detalhes esquecidos, o barulho do vento entre os prédios, o cheiro do pão recém-assado, o breve silêncio antes de um semáforo abrir. Descobriu que havia beleza escondida nos intervalos, nos segundos em que ninguém exige nada de nós.

Quando a noite chegou, sentiu-se diferente. Não mais leve, mas mais atento. Percebeu que o peso dos dias comuns não está na repetição, e sim na falta de presença. E entendeu, com uma serenidade tímida, que talvez viver seja isso: aprender a não atravessar a própria vida com pressa demais.

Por Lyu Somah

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