domingo, 20 de setembro de 2026

Ela quase morreu durante uma corrida após comer uma maçã: entenda a rara alergia

Uma corredora de 29 anos sofreu anafilaxia durante uma corrida após comer maçã e outros alimentos. Entenda a rara alergia desencadeada pela combinação entre comida e exercício.

Ela só queria fazer uma corrida

Para quem pratica corrida, comer alguma coisa antes do treino é algo absolutamente comum. Uma fruta, uma barrinha, um pão ou até um smoothie podem fazer parte da rotina antes de sair para correr.

Mas, para a britânica Dea Gagoshidze, uma refeição antes da atividade física acabou desencadeando uma reação alérgica que quase tirou sua vida.

A corredora de 29 anos, de Somerset, no Reino Unido, estava correndo com uma amiga quando percebeu que seus olhos e lábios começaram a inchar.

No início, Dea pensou que estivesse tendo uma crise de febre do feno, uma condição bastante comum no Reino Unido.

Ela chegou a ir até a recepção do local onde estava correndo para tentar conseguir um anti-histamínico.

Mas a situação rapidamente ficou muito mais grave.

Dea caiu no chão e começou a entrar e sair da consciência. Quando os paramédicos chegaram, precisaram administrar adrenalina, e ela começou a se recuperar.

O que ninguém sabia naquele momento era que o problema estava relacionado à combinação entre alimentos e exercício físico.

O diagnóstico veio depois

Os exames realizados posteriormente revelaram que Dea tinha uma condição rara chamada anafilaxia induzida por exercício dependente de alimentos, conhecida pela sigla FDEIA.

O nome parece complicado, mas a ideia é relativamente simples.

A pessoa pode conseguir comer determinado alimento normalmente e também pode conseguir praticar exercícios normalmente.

O problema aparece quando as duas coisas acontecem próximas uma da outra.

A Anaphylaxis UK explica que, na FDEIA, o alimento isoladamente pode não provocar sintomas. É a combinação com a atividade física que pode desencadear a reação.

E correr é justamente uma das atividades mais frequentemente associadas à anafilaxia induzida por exercício.

Dea Gagoshidze precisou ser levada para atendimento médico depois de sofrer uma reação alérgica durante uma corrida.
(Foto: Kennedy News and Media)

Mas o que a maçã tem a ver com isso?

Aqui está a parte que torna a história ainda mais curiosa.

No dia em que passou mal, Dea havia comido um wrap com paneer, vários vegetais e maçãs antes da corrida.

Posteriormente, os médicos identificaram que ela apresenta sensibilidade às chamadas proteínas de transferência de lipídios, conhecidas como LTPs.

Essas proteínas estão presentes naturalmente em diversos alimentos de origem vegetal.

Entre os alimentos associados à alergia a LTP estão frutas, vegetais, castanhas e outros produtos vegetais. A Sociedade Britânica de Alergia e Imunologia Clínica (BSACI) destaca que maçãs, frutas de caroço, tomates, amendoins e castanhas estão entre os alimentos frequentemente envolvidos em reações relacionadas às LTPs.

Dea contou à LADbible que acredita que a maçã e os vegetais consumidos naquele dia contribuíram para o episódio.

Mas existe uma diferença importante:

isso não significa que comer uma maçã antes de correr seja perigoso para a maioria das pessoas.

O caso dela envolve uma condição alérgica específica.

Por que o exercício pode mudar a reação do organismo?

Essa é justamente uma das características mais intrigantes da FDEIA.

Segundo a Anaphylaxis UK, algumas pessoas conseguem consumir o alimento desencadeante sem apresentar qualquer reação quando não praticam exercícios.

Quando a atividade física entra em cena, porém, a reação pode acontecer.

Os mecanismos envolvidos ainda não são completamente compreendidos pela ciência. Acredita-se que uma combinação de fatores relacionados ao exercício possa favorecer a liberação de substâncias como a histamina e desencadear a reação alérgica.

Em outras palavras, o alimento pode funcionar como uma espécie de gatilho que precisa do exercício para provocar a reação.

É por isso que alguém pode comer determinado alimento durante anos sem perceber que existe um problema.

Uma reação que pode começar com sintomas aparentemente comuns

Um dos perigos desse tipo de condição é que os primeiros sintomas podem parecer relativamente simples.

A anafilaxia relacionada ao exercício pode provocar:
 
  • coceira;
  • urticária;
  • vermelhidão;
  • inchaço no rosto, lábios ou olhos;
  • formigamento ou coceira na boca;
  • sensação de aperto na garganta;
  • dor abdominal;
  • vômitos ou diarreia.

Quando a reação se torna grave, podem aparecer dificuldade para respirar, queda da pressão arterial, tontura, confusão, perda de consciência e colapso.

Foi justamente a evolução rápida do quadro que tornou o episódio de Dea tão perigoso.

Ela inicialmente acreditou que estivesse enfrentando algo semelhante a uma crise alérgica comum.

Pouco depois, estava perdendo a consciência.

A alergia não acabou com a paixão pela corrida

Apesar do susto, Dea não abandonou o esporte.

Ela é corredora frequente e costuma correr cerca de quatro vezes por semana.

Depois do diagnóstico, porém, precisou mudar completamente a maneira como se alimenta antes dos treinos.

A corredora contou que passou a evitar alimentos que podem conter as proteínas às quais é sensível antes de se exercitar.

Em corridas mais longas, por exemplo, ela disse que passou a optar por algo simples, como um bagel com manteiga.

E existe uma situação particularmente complicada.

Dea contou que até uma pequena quantidade de smoothie antes de uma corrida pode fazê-la desistir do treino por segurança, dependendo dos ingredientes.

Por isso, ela passou a considerar o exercício em jejum uma maneira de reduzir o risco de uma nova reação.

Mesmo assim, ela correu uma maratona

Talvez essa seja uma das partes mais interessantes da história.

Mesmo depois do episódio e das mudanças necessárias em sua rotina, Dea conseguiu participar da Maratona de Paris em abril de 2026.

O diagnóstico não significou o fim de sua vida esportiva, mas obrigou a corredora a conhecer muito melhor os próprios gatilhos e a tomar precauções antes das atividades físicas.

Ela também passou a compartilhar sua experiência nas redes sociais para tentar aumentar a conscientização sobre esse tipo raro de reação alérgica.

Mesmo após descobrir a rara condição alérgica, Dea Gagoshidze continuou correndo e participou da Maratona de Paris em 2026.
(Foto: Kennedy News and Media)

Então todo mundo deve evitar maçã antes do exercício?

Não.

Esse é um ponto importante para não transformar uma história rara em uma recomendação geral.

A maçã não é, por si só, um alimento perigoso para quem vai correr.

O que aconteceu com Dea está relacionado a uma alergia específica e à interação entre determinados alimentos e o exercício físico.

A própria Anaphylaxis UK explica que os alimentos desencadeantes variam entre as pessoas e que a FDEIA pode envolver diferentes alimentos, incluindo trigo, frutos do mar, castanhas, ovos e leite.

No caso de pessoas com alergia a LTP, a lista pode incluir diversos alimentos vegetais, e a reação também pode ser influenciada por outros fatores.

A BSACI destaca que exercício e álcool podem atuar como cofatores, aumentando a possibilidade ou a gravidade das reações em pessoas com alergia a LTP.

Portanto, a história de Dea não é um alerta contra a maçã.

É um exemplo de como uma alergia pouco conhecida pode permanecer escondida até que um segundo fator, como o exercício, desencadeie uma reação grave.

Como uma pessoa descobre que tem esse problema?

O diagnóstico pode ser difícil justamente porque os sintomas nem sempre aparecem todas as vezes.

Uma pessoa pode comer determinado alimento sem qualquer problema em um dia e apresentar uma reação quando pratica exercício depois de consumi-lo em outra ocasião.

A Anaphylaxis UK recomenda procurar avaliação médica quando sintomas de alergia aparecem durante ou depois de atividades físicas. A investigação pode envolver uma análise detalhada do histórico dos episódios e, em alguns casos, testes de provocação realizados sob supervisão médica.

No caso de suspeita de alergia a LTP, a BSACI também ressalta que um teste positivo para um alérgeno específico precisa ser interpretado junto com a história clínica. Um resultado isolado não é suficiente para estabelecer o diagnóstico.
 
O que fazer diante de uma reação grave?

A anafilaxia é uma emergência médica.

Se uma pessoa apresenta sintomas graves durante ou depois de uma atividade física, especialmente dificuldade para respirar, inchaço de garganta ou língua, tontura intensa, perda de consciência ou colapso, é necessário interromper o exercício e buscar atendimento de emergência.

Para pessoas que já receberam prescrição de adrenalina por risco de anafilaxia, a Anaphylaxis UK orienta que o medicamento seja levado durante os exercícios e utilizado conforme o plano médico prescrito. A organização também recomenda que pessoas com esse diagnóstico façam atividade física acompanhadas por alguém que conheça sua condição.

Isso é especialmente importante porque a anafilaxia pode evoluir rapidamente.

Perguntas e respostas rápidas

Comer maçã antes de correr pode causar alergia?

Para a maioria das pessoas, não. Em pessoas com determinadas alergias, porém, o exercício pode atuar como um cofator e desencadear uma reação grave depois do consumo de um alimento específico.

O que é FDEIA?

É a anafilaxia induzida por exercício dependente de alimentos. A reação ocorre quando o consumo de determinado alimento e a prática de atividade física se combinam.

O que são LTPs?

São proteínas de transferência de lipídios encontradas em diversos alimentos vegetais. Em algumas pessoas sensibilizadas, podem estar associadas a reações alérgicas, inclusive anafilaxia.

Quais são os sintomas de anafilaxia durante exercícios?

Podem incluir inchaço, urticária, dificuldade para respirar, tontura, queda da pressão, confusão e perda de consciência.

Dea precisou parar de correr?

Não. Mesmo após o diagnóstico, ela continuou correndo e participou da Maratona de Paris em abril de 2026, mas passou a tomar precauções para evitar seus gatilhos.
 
Uma maçã, uma corrida e uma condição que ela nem sabia que tinha

A história de Dea Gagoshidze mostra como algumas condições alérgicas podem permanecer praticamente invisíveis até que uma combinação específica de fatores aconteça.

Ela comia alimentos normalmente.

Também corria regularmente.

Mas, quando determinados alimentos e o exercício se encontraram, seu organismo desencadeou uma reação potencialmente fatal.

O episódio também ajuda a explicar por que não é correto olhar apenas para o alimento quando uma reação alérgica acontece. Em determinadas pessoas, fatores como exercício, álcool ou medicamentos podem participar do processo e transformar uma exposição que normalmente seria tolerada em uma situação de emergência.

Para Dea, a descoberta significou mudar a rotina e prestar atenção redobrada ao que come antes de correr.

Mas também significou descobrir o motivo de algo que, até então, parecia não fazer sentido.

Uma corrida que deveria ser apenas mais um treino acabou revelando uma alergia rara que ela nem sabia que tinha.

Conteúdo elaborado por Lyu Somah, com base em informações de: LADbible, Anaphylaxis UK, British Society for Allergy and Clinical Immunology (BSACI) e Clinical & Experimental Allergy.

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