Algumas pessoas entram na nossa vida sem bater à porta
Henrique morava no Edifício Palmeiras havia tanto tempo que já não lembrava se o porteiro tinha chegado antes dele ou se era o contrário. Tinha quarenta e cinco anos, trabalhava como analista financeiro e levava uma vida organizada demais para permitir atrasos, esquecimentos ou surpresas. O despertador tocava às seis e vinte. O café ficava pronto às seis e quarenta. Às sete e vinte, sem um minuto de diferença, ele atravessava o saguão do prédio.
E era exatamente ali que o relógio perdia cinco minutos.
— Bom dia, doutor Henrique.
Seu Antônio dizia isso todos os dias.
Henrique já tinha explicado, mais de uma vez, que não era doutor.
— Pra mim, quem usa camisa social todo dia merece o título.
Nunca houve discussão capaz de fazê-lo mudar de ideia.
Antes de abrir o portão da garagem, seu Antônio sempre encontrava um assunto.
Às vezes era o calor.
Outras vezes era o preço do café.
Em dias de chuva, dizia que São Pedro estava lavando a cidade porque ela andava precisando.
Quando um ipê da praça em frente floresceu fora de época, comentou com a convicção de um botânico:
— Tá vendo, doutor? Até árvore enjoa de seguir calendário.
Henrique ria.
Não porque a piada fosse boa.
Mas porque era impossível conversar com aquele homem sem sorrir.
Cinco minutos.
Era tudo o que a rotina permitia.
Na segunda-feira seguinte, Henrique atravessou o saguão como fazia havia tantos anos.
Atrás do balcão estava um rapaz que ele nunca tinha visto.
Os olhos não saíram da tela do celular nem quando o portão eletrônico começou a abrir.
Henrique diminuiu o passo.
— O seu Antônio tirou férias?
O rapaz levantou a cabeça.
— Não, senhor.
Fez uma pausa curta.
— Aposentou na sexta-feira.
Henrique respondeu apenas com um "ah".
Entrou no carro.
Ligou o rádio.
Desligou.
O trânsito era o mesmo.
Os semáforos continuavam demorando mais do que deveriam.
Na padaria da esquina ainda havia uma fila de gente comprando pão francês.
Nada parecia diferente.
Mesmo assim, alguma coisa insistia em não caber naquela manhã.
Os dias seguiram.
Na portaria, o novo porteiro cumprimentava os moradores com eficiência.
Boa educação.
Bom serviço.
Tudo certo.
Mas havia uma diferença difícil de explicar.
Ele abria o portão.
Seu Antônio abria conversa.
Numa tarde de sábado, Henrique resolveu caminhar sem destino pelas ruas do bairro.
Dobrou uma esquina e encontrou a pequena praça onde costumava passar de carro todas as manhãs.
O ipê continuava ali.
Coberto de flores amarelas.
No banco logo embaixo da árvore estava seu Antônio, lendo jornal.
Henrique sorriu antes mesmo de ser visto.
— Doutor Henrique!
O jornal foi dobrado na mesma velocidade com que surgia uma pergunta.
— E aquela sua filha? Já decidiu qual faculdade vai fazer?
Henrique precisou de alguns segundos para responder.
Não porque tivesse esquecido da pergunta.
Mas porque se deu conta de que o porteiro lembrava de uma conversa que eles haviam tido quase um ano antes.
Sentou-se no banco.
Conversaram sobre futebol.
Sobre o calor.
Sobre um cachorro que agora perseguia bicicletas em vez de carros.
Sobre o ipê.
— Eu falei que ele não gostava de calendário.
Quando Henrique olhou o relógio, já estava atrasado para lugar nenhum.
Levantou-se.
Despediu-se.
Seu Antônio voltou ao jornal.
Na segunda-feira, às sete e vinte, Henrique atravessou novamente o saguão do edifício.
O rapaz da portaria levantou os olhos por um instante.
— Bom dia.
— Bom dia.
Henrique caminhou até o carro.
Antes de entrar, olhou automaticamente para a praça do outro lado da rua.
O ipê ainda florescia.
Sorriu de leve.
Ligou o carro.
E saiu sem pressa.
E era exatamente ali que o relógio perdia cinco minutos.
— Bom dia, doutor Henrique.
Seu Antônio dizia isso todos os dias.
Henrique já tinha explicado, mais de uma vez, que não era doutor.
— Pra mim, quem usa camisa social todo dia merece o título.
Nunca houve discussão capaz de fazê-lo mudar de ideia.
Antes de abrir o portão da garagem, seu Antônio sempre encontrava um assunto.
Às vezes era o calor.
Outras vezes era o preço do café.
Em dias de chuva, dizia que São Pedro estava lavando a cidade porque ela andava precisando.
Quando um ipê da praça em frente floresceu fora de época, comentou com a convicção de um botânico:
— Tá vendo, doutor? Até árvore enjoa de seguir calendário.
Henrique ria.
Não porque a piada fosse boa.
Mas porque era impossível conversar com aquele homem sem sorrir.
Cinco minutos.
Era tudo o que a rotina permitia.
Na segunda-feira seguinte, Henrique atravessou o saguão como fazia havia tantos anos.
Atrás do balcão estava um rapaz que ele nunca tinha visto.
Os olhos não saíram da tela do celular nem quando o portão eletrônico começou a abrir.
Henrique diminuiu o passo.
— O seu Antônio tirou férias?
O rapaz levantou a cabeça.
— Não, senhor.
Fez uma pausa curta.
— Aposentou na sexta-feira.
Henrique respondeu apenas com um "ah".
Entrou no carro.
Ligou o rádio.
Desligou.
O trânsito era o mesmo.
Os semáforos continuavam demorando mais do que deveriam.
Na padaria da esquina ainda havia uma fila de gente comprando pão francês.
Nada parecia diferente.
Mesmo assim, alguma coisa insistia em não caber naquela manhã.
Os dias seguiram.
Na portaria, o novo porteiro cumprimentava os moradores com eficiência.
Boa educação.
Bom serviço.
Tudo certo.
Mas havia uma diferença difícil de explicar.
Ele abria o portão.
Seu Antônio abria conversa.
Numa tarde de sábado, Henrique resolveu caminhar sem destino pelas ruas do bairro.
Dobrou uma esquina e encontrou a pequena praça onde costumava passar de carro todas as manhãs.
O ipê continuava ali.
Coberto de flores amarelas.
No banco logo embaixo da árvore estava seu Antônio, lendo jornal.
Henrique sorriu antes mesmo de ser visto.
— Doutor Henrique!
O jornal foi dobrado na mesma velocidade com que surgia uma pergunta.
— E aquela sua filha? Já decidiu qual faculdade vai fazer?
Henrique precisou de alguns segundos para responder.
Não porque tivesse esquecido da pergunta.
Mas porque se deu conta de que o porteiro lembrava de uma conversa que eles haviam tido quase um ano antes.
Sentou-se no banco.
Conversaram sobre futebol.
Sobre o calor.
Sobre um cachorro que agora perseguia bicicletas em vez de carros.
Sobre o ipê.
— Eu falei que ele não gostava de calendário.
Quando Henrique olhou o relógio, já estava atrasado para lugar nenhum.
Levantou-se.
Despediu-se.
Seu Antônio voltou ao jornal.
Na segunda-feira, às sete e vinte, Henrique atravessou novamente o saguão do edifício.
O rapaz da portaria levantou os olhos por um instante.
— Bom dia.
— Bom dia.
Henrique caminhou até o carro.
Antes de entrar, olhou automaticamente para a praça do outro lado da rua.
O ipê ainda florescia.
Sorriu de leve.
Ligou o carro.
E saiu sem pressa.
Por Lyu Somah
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